sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Janela

Dois jovens fumavam um baseado, daqueles bem fininhos, sossegados, ao som da música, ou do vídeo preferido no celular, debaixo de um toldo, numa rua em que a violência se esconde nas sombras da sobra de uma precária iluminação pública. Quando surge pela frente a sei-lá-os-motivos detonando o flagrante, ameaçando com o indicador em riste a face de um dos porquê-motivos.

Saio da janela, ligo a televisão e assisto a mais um fato de corrupção apresentado por apresentáveis jornalistas, que de quebra informam que os vereadores aumentaram os próprios salários.

Desligo a Tv e continuo na observação do flagrante. Que flagrante? É só um baseado. E baseado em motivos, quem explica?

Tentei entender a sei-lá-os-motivos, talvez fosse preocupação de mãe, toda aquela ira. Claro. Tanto pavor muralha o conhecimento, e não podemos esquecer o tal crime organizado.

Talvez falte contato, com abraço, ou um aperto de mão; olhos nos olhos. Já reparou como corremos contra o tempo? O pior: em coletividade. É; o porquê-motivos já nasceu disputando sua presença com os problemas que não eram dele, simplesmente os herdou dos que eram o futuro da nação; e esses tinham contato.

Queria um terraço, não uma caixa de tarja preta para enxergar o colorido através de cápsulas ou de gotas. Ainda bem que me resta a janela, embora eu não observe o céu.

3 comentários:

Telma disse...

A maioria das pessoas observam apáticas do mesmo canto da 'janela', você não. Você usa a janela para definir o grito, o tom...
E não olha para o céu pois o que vês desta janela cansa as vistas e a alma.
Mas és guerreiro das letras, das intervenções, da oratória...Então meu amigo pensante, olhe para o céu, pois assim não te sentirás sufocado e impotente diante do que vês das tuas janelas "definidoras" de escritos.
Amplie cada vez mais tuas mensagens, alce vôo.
Quem sabe a partir destas leituras as janelas tarjas pretas e baseados não ficam coloridas e libertas?
A esperança é a última q morre....

Valéria disse...

Os "porquê-motivos" acreditam que a felicidade é um estado de plenitude e que pode ser comprado. Fomos nós que ensinamos isso para eles. A felicidade pode estar em um baseado, em uma pílula milagrosa ou na capacidade e no direito de "fazer todo o possível para ser feliz". Acho que a gente via o céu, mas como na época ele era distante (e até perigoso de tocar), preferimos as janelas. E depois, perdemos a coragem de dar coragem para as gerações posteriores. Deixamos os utilitaristas darem o seu o recado. Ok... Toda geração erra... Só acho que talvez devêssemos ser mais enfáticos e abrir algumas clarabóias no telhado sem medo dos eventuais granizos. Sempre que chove eu penso em clarabóias... Meu telhado é fechado e sempre tenho goteiras... Com clarabóias eu pelo menos veria a chuva. Estou cogitando....

peluxo disse...

As vezes fico a pensar se em uma sociedade não menos corrupta quando comparada a tantas outras ditas desenvolvidas seriamos capazes de resgatar a sociedade onde as pessoas tinham caráter e respeito. A corrupção e o abandono de nossas ruas pelas instituições públicas nos deixam dia a dia a mercê de um bando de calhordas que nos fazem dispensar forças com o mínimo, enquanto deixamos de lado todos aqueles que morrem diariamente por falta das verbas que foram desviadas dos hospitais.
Você caro amigo, é um desabafo em uma sociedade que peca pela opacidade espontânea em suas retinas.
Afinal, quem não se preocupa sofre menos......
Um abraço
Peluxo !!!!