quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A Amazônia e o verde que deu rasteira nas árvores

Agoniza a Amazônia de rios assoreados por mortos peixes. Vidas do pulmão do mundo agonizam.

Rios antes caudalosos, cheios de peixe, afloram o fundo de mosaico de lama endurecida pelo sol escaldante, e claro, pela ação predatória econômica no patrimônio da humanidade, a Floresta Amazônica. Debate-se na margem de rios quase nus de vida, o último bagre.

Chora o ribeirinho, cada vez mais ribeiro, face o acuo aplicado por rebanhos, que pintam de branco a moribunda floresta que sem poder correr, sente arder em faíscas milenares acarvoados troncos, que aguardam o capim para despistar o holocausto.

O Ribeirinho que antes tinha sua fonte de alimento ao alcance da janela num simples arremesso com isca certa. Agora sai em busca de outros remansos.

Sem ranço do gado, espera buscar sorte grande na cidade. Poder catar papelão, e no fim de semana, comer a costela sem procedência assada no carvão sem certificação.

Mas tudo passa. Logo virão as chuvas que afogam o sul do Brasil e novamente o verde voltará, embora mais fraco, rasteiro e pisado, mas dizem que a solução virá com a máquina que transforma dinheiro em alimento.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Eu, você e o Belchior

Se algum dia nos encontrarmos e você vier me perguntar por onde andei, gostaria de dizer que estava com Belchior; bem longe do Sarney e dos cabra da peste que impesteiam os poderes que estão apodrecendo o sonho do brasileiro e de tantos outros irmãos latinos.

Quando assisti à entrevista do fujão latino americano sem parentes importantes, confesso: senti Inveja do Belchior. Queria também poder ir para o Uruguai; voltar a ser um rapaz Latino-Americano e mesmo sem dinheiro no banco, permanecer sonhando acordado de que tudo é divino, tudo é maravilhoso.

E não cantaria a canção como se deve: correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Pois estaria em fuga da sujeirada. Partiria vomitando em cima dos escrementos que nos atormentam com emendas de orçamento e tal, apoiadas nos “emprestados” canhões que avermelharam a rosada casa de Alende.

Nesse contexto, nada é divino, nada; nada é maravilhoso, nada; nada é sagrado; nada, nada é misterioso. Ressuscitaria a “poderosa” e costuraria as veias abertas da nossa querida América Latina, para estancar o sangue derramado de nossos irmãos talhado nas entranhas da exploração encoberta pelo sinistro descobrimento.

Por isso, cada passo deve ser cuidadosamente estudado. O sinal, discretamente está fechado para nós desde que aqui chegaram as três caravelas.

Por ventura ou por azar, vieram com Cristo e o canhão. Quantos índios mataram ninguém pode contar. Conta-se que algumas mortes não ocorreram por ação do invasor que chegou de além-mar trazendo os deuses cavalos; índias mães desesperadas, com receio do futuro, aguardavam com a mão enforcante a vinda do pescoço do rebento, pensando dessa forma libertá-lo.

E o rebento partia com a face rocheada, sem mesmo chegar. Sem soltar o choro de celebração da vida, ou o grito da vitória.

Nem um choro, apenas lamento. Sons, palavras, são navalhas e não podemos cantar como convém sem querer ferir ninguém, pois o ferido de morte sou eu, é você. E de nada adiantará gritar, pois correrá o risco de perceberem sua presença; então o silêncio é a saída, ou quem sabe a abertura de sua sepultura.

A escolha, lembre-se, é você que faz. Pode fugir quando quiser, mas permanecerá preso na lembrança de não ter tentado.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Cúmplice, eu?

Muitas vezes, antes de tombar em definitivo, antes dos joelhos começarem a dobrar, buscamos no silêncio a intenção de prolongar a sobrevivência; até quando? Injustiças chovem ao nosso redor, massacres de inocentes molduram nossa janela, e nem um sussurro de contestação. Emudecemos na cumplicidade do silêncio.

O conformismo do “ainda” ileso, além da mordaça, também coloca venda nos olhos, mesmo que seu ideal não esteja à venda.

Não nos levantamos contra as injustiças, porque somos co-autores no silêncio que camufla a covardia. Emudecemos no assalto à casa do vizinho, à chacina no bar da esquina, até o dia em que nossa vida se enquadrar na alça da mira do medo que cresce, a medida que nos tornamos cúmplices.

Assistimos complacentes a mais um caso de corrupção envolvendo o Estado, sem nos enxergarmos no estado, enquanto eleitores responsáveis que somos, somos?

Um bando de idiotas imaginando que o paraíso está depois da invisível linha da vida é o que somos. Pensamos na morte como algo libertador e esquecemos que a vida deve ser celebrada. Contudo, a vida, a vida mesmo, é só para os guerreiros de coração grande, com visão além do muro que construíram enquanto você cochilava, ou melhor, fingia, só para não ver mais uma covardia.