sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Valsando a vida

Tem dias em que mesmo após abrir os olhos e fazer um lento espreguiçar, todo o meu corpo implora para não sair da cama, talvez para adiar o meu encontro com a manada de boçais que recheiam a rotina da minoria desperta.

Algumas vezes a energia para levantar é antecipar o assassinato do dia; pensando na noite, o retorno, o abrir da cela da doce prisão de sonhos depois da aceleração do dia.

Na prisão busco o clic do sono. Reluto com fantasmas variados até conseguir fechar os olhos, até então perdidos no finito teto de meu quarto pintado em branco-gelo, buscando, ainda abertos sonhar; imaginando ser o teto que paira sobre meu corpo estirado na cama uma gigantesca tela da vida.

O sono, face à ansiedade foge. Meus olhos inquietantes e cerrados correm de um lado para outro, buscando ao menos sonhos em preto e branco, mas se perdem no vazio do teto; até que novamente o sol dribla a escuridão e vem me avisar que um novo dia chegou.


Saúdo o sol, mas também saúdo os boçais que cruzam meu caminho, pois sei que eles são uma bússola danificada, com serventia apenas para a manada sem rumo, a qual, sequer, entre milhares, imagina que viemos feito para acabar.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Consciência Negra - descredenciados pelo Sistema

Dias desses, no interior de um ônibus, vi um menino indagando o pai sobre heróis. Em uma das frações do diálogo o menino perguntou ao pai se no Brasil tinha algum herói para vencer o Homem de Ferro? Aparentemente, o pai, para não contrariar o filho, encheu a bola do tal Homem de Ferro; como um especialista em HQ esmiuçou todos os seus super poderes tornando o herói imbatível. E vi no menino um certo brilho de júbilo, talvez por ter em casa vários bonecos do imbatível herói.

A cena trouxe-me certa perturbação... Será que não temos heróis no Brasil para apresentar as futuras gerações? Como estamos na semana da Consciência Negra, vamos a um breve resgate: A Revolta da Chibata e nosso brasileiro herói João Cândido Felisberto, o Almirante Negro e a marujada negra dos encouraçados Minas Gerias e São Paulo.

O Brasil no auge do ciclo da borracha e do café investia pesado no fortalecimento da esquadra brasileira, mas faltavam marujos para fazer o trabalho da ralé. A Revolta da Chibata, acredito, seja o divisor de água da Marinha de Guerra do Brasil. Não fosse ela, a marujada, comandada por oficiais oriundos somente da aristocracia, até os dias de hoje seria capturada a força nos guetos e prisões desse Brasil e confinados em prisões flutuantes “doutrinados” pelo açoite da chibata.

A chibata era “herança” portuguesa nas forças armadas. A marinha de outros países e até o exército brasileiro já tinha abolido a prática da chibata como castigo disciplinar. Foram inúmeras as tentativas de eliminar esse aviltante castigo. Em 1865 a Câmara dos deputados apresentou um projeto que sugeria a substituição do castigo físico por descontos no soldo, mas a Marinha do Brasil não aceitou.

Em 1883 um novo pedido foi feito, fixando em 25 chibatadas o castigo. Com a República em 1889, um dos primeiro atos do governo foi abolir a chibata, mas a abolição ficou só no papel. O fim do castigo só veio em 1910 com a revolta dos marinheiros. O estopim foi a aplicação de 250 chibatadas no marujo Marcelino Rodrigues.


Salve João Cândido e Francisco Dias Martins, o Mão Negra! Salve, salve o jangadeiro Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar! Salve Chico Prego! Salve Anastácia e Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho! Salve Solano Trindade, André Rebouças e tantos heróis e heroínas que deram razão à vida pela dignidade humana.