sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Janela

Dois jovens fumavam um baseado, daqueles bem fininhos, sossegados, ao som da música, ou do vídeo preferido no celular, debaixo de um toldo, numa rua em que a violência se esconde nas sombras da sobra de uma precária iluminação pública. Quando surge pela frente a sei-lá-os-motivos detonando o flagrante, ameaçando com o indicador em riste a face de um dos porquê-motivos.

Saio da janela, ligo a televisão e assisto a mais um fato de corrupção apresentado por apresentáveis jornalistas, que de quebra informam que os vereadores aumentaram os próprios salários.

Desligo a Tv e continuo na observação do flagrante. Que flagrante? É só um baseado. E baseado em motivos, quem explica?

Tentei entender a sei-lá-os-motivos, talvez fosse preocupação de mãe, toda aquela ira. Claro. Tanto pavor muralha o conhecimento, e não podemos esquecer o tal crime organizado.

Talvez falte contato, com abraço, ou um aperto de mão; olhos nos olhos. Já reparou como corremos contra o tempo? O pior: em coletividade. É; o porquê-motivos já nasceu disputando sua presença com os problemas que não eram dele, simplesmente os herdou dos que eram o futuro da nação; e esses tinham contato.

Queria um terraço, não uma caixa de tarja preta para enxergar o colorido através de cápsulas ou de gotas. Ainda bem que me resta a janela, embora eu não observe o céu.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Goebbels vive

Quanto custa a verdade? Qual o custo de uma propaganda do Ministério da Saúde, ou de secretarias estaduais de saúde na mídia, enquanto abarrotados de gente estão os corredores dos pronto-atendimentos públicos? Faltando remédios para o corpo e para a alma.

Por que o Banco do Brasil tem que patrocinar o Bom Dia Brasil da Rede Globo? Quanto é a cifra? Ou será segredo? Por isso, guardam-se segredos?

São muitas as propagandas públicas na mídia. Não só dos ministérios e das empresa do Lula, mas também de outros setores e poderes públicos.Todas consumindo milhões de dinheiro público.

“Uma mentira mil vezes dita, torna-se verdade”. Esse pensar do pai da propaganda nazista, Joseph Goebbels, leva-me a crer que vivemos numa espécie de lavagem cerebral midiática, que só terá fim, no dia em que houver transparência nos custos dessa publicidade pública.

Quando seu Quincas Berro D’água perceber que o gasto com a propaganda da companhia estadual de água e de esgoto daria para levar água limpa ao povo das grimpas, começaria a reclamar do gasto desnecessário do dinheiro público em propagandas de ficção.

Até a Eletrobrás resolveu dar o ar da graça na plim plim. Depois desse longo período de estiagem não repetiram as perguntas que todos os anos nos aterrorizam: Teremos em vista algum apagão? Como estão os volumes hidrográficos de nossas principais bacias hidrográficas? Ninguém responde. Serão os efeitos da propaganda?

Penso que tem a ver. Ineficiências públicas desaparecem do foco da mídia à medida que observamos aumentar as propagandas públicas. Por isso, penso que deve haver uma lei para disciplinar as propagandas institucionais em todas as formas de mídia paga; pelo menos na transparência dos gastos públicos; independente do Poder que as solicitam.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

TSE

Após o pleito eleitoral, sempre busquei identificar quem eram os invisíveis atores que haviam participado nos bastidores da democracia. Buscava as informações no site do TSE.

Numa linguagem simples, sem precisar de CNPJ, era só digitar o nome da empresa, que lá constava quem eram seus financiados. Algumas com atuação nacional. Numa dessas pesquisas, lembro-me de um mesmo banco ter doado igualmente alta quantia em milhões para dois candidatos à presidente do Brasil.

Encontrava-se com inteligência respostas importantes, por exemplo, sobre o avanço da soja na Floresta Amazônia, as candidaturas do governador Blairo Maggi (2002/2006), veio sob o espectro das Organizações Amagi.

Sobre o plebiscito do desarmamento também rolou vultosas doações. Tudo com muita transparência no site do TSE. Sabe por que morremos de bala perdida? Estava lá no site do TSE.

É direito do eleitor, conhecer os financiadores privados de campanhas políticas. Quais são as organizações que estão por trás das ações de nosso parlamento; à frente da execução de custosas obras públicas? Algumas obras com prazo de término sorrateiramente apagado, sem contar a parte das cifras, que também desaparece, só que da esquerda para a direita.

A consolidação da democracia está na transparência que a sustenta. Para piorar, continuamos assistindo a legenda substituindo a vontade da maioria.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Mafersa

Dias desses, numa das minhas idas e vindas, vejo passando um Mafersa, viajei 20 anos atrás, o problema era só as janelas fixas na primeira bandeira, o “resto” era tudo de bom; piso plano e acesso quase nivelado a calçada; ônibus grandes com motores traseiros, com capacidade de até 110 passageiros; corredores largos, o primeiro três portas brasileiro.

A questão das janelas seria de fácil solução, era só constar na compra dos veículos, mas o Mafersa sumiu, assim como desapareceu seu amarelo no meio do sorriso.

Eu era um viajante cativo dos amarelões, mas eles não existem mais. Fecharam a empresa brasileira que fabricava ônibus brasileiro, para as nossas necessidades, de acordo com o clima e geografia. Tivessem uma boa manutenção poderiam estar até hoje em operação.

Incrível como perdemos identidade rapidamente; um canetaço e tudo se resolve. Imagine nas necessidades de mobilidade pela qual passa o planeta, o valor que teria a fabricante de vagões e de ônibus, a nossa brasileira Mafersa.

Eram equipamentos que apresentavam a robustez necessária para barateamento da tarifa, pois bem operados, poderia se aplicar maior prazo para renovação da frota, sem contar a questão comparativa de passageiros transportados, com os atuais novos veículos em operação, cuja capacidade é de 90 passageiros.

A fragilidade dos atuais equipamentos, produzidos de forma a ser aplicada à renovação da frota, implica em aumento dos custos de operação, e quem sai ganhando são as “exclusivas” multinacionais produtoras dos ônibus, que ganharam força com a aniquilação da brasileira Mafersa. Quem perde somos nós, o nosso meio ambiente; equipamentos que deveria ter longa utilização, descartados.

É preciso mudar essa cultura vampirista. O Brasil necessita de um padrão brasileiro metropolitano de transportes públicos de passageiros sobre rodas; definido e determinado pelo poder público, caso contrário, os subsídios públicos comprometerão cada vez mais outros essências serviços públicos.