segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Fora dos trilhos

Recentemente, por conta da careta do Willian Bonner noticiando “baderna” dos usuários de transporte sobre trilhos na cidade do Rio de Janeiro e contidos pelas balas de borracha da policia militar; por duvidar da forma em que o conteúdo foi abordado, iniciei uma rápida pesquisa sobre o sistema de mobilidade da Cidade Maravilhosa.  

A dúvida sobre os trejeitos do apresentador âncora do Jornal Nacional, não ocorreu por conta de seu histórico de caras e caretas apresentando o JN, mas pela raiz histórica da emissora-empresa que negou As Diretas Já ao povo brasileiro. As imagens mostraram além dos disparos de bombas e balas de borracha, o sucateamento da frota e da malha ferroviária fluminense, há tempos sob concessão da Supervia. 

Embora a ação da polícia tenha sido desproporcional, não se tratava de baderna, mas tão somente da revolta explícita dos usuários, por conta de efeitos colaterais históricos de anos e anos de (indi)gestão pública (des)focada da mobilidade urbana. 

Sua fala, Willian, propositalmente esqueceu do histórico. Mas tinha imagens. Vai dizer que você não observou que os trens apresentavam sinais de sucateamento agudo? E a malha ferroviária em caos total, pedaços de trilhos indicando lugar algum, você viu? Claro que você arrumaria um jeito de colocar a culpa nos meliantes que roubam fios nas ferrovias. Espero que tenha acordado cedo para assistir ao Chico Pinheiro dando seu show de conhecimento das necessidades históricas das massas no Bom dia Brasil.

Imagine Bonner sair de casa cedinho para trabalhar, aliás, de madrugada. Disputar espaço entre cotovelos e sovacos, lembrado de não levantar um dos pés para coçar a perna, pois não encontrará espaço para retorno. E a volta? Imagine sair do trabalho sem previsão de chegar ao lar. O desconforto por conta das superlotações nos vários moldais privados concessionários, acredito, o povo há anos vêm tirando de letra. O problema é a insegurança de cumprimento de horário somada à dependência da gestão pública cegada na visão privada de exploração de um serviço essencialmente social, e que deveria estar ligado a outros meios alternativos.

A revolta nos trens do Rio sinaliza pedido de socorro às gestões públicas. Pedido não só ao poder executivo, mas aos demais. O histórico de concessão da malha ferroviária carioca para a Supervia, vai até o ano 2048. Prorrogação feita pelo governo de Cabral (PMDB) no final de novembro de 2010, e que só contará a partir de 2023, quando termina a concessão feita em 1998 pelo governo de Marcello Alencar (PSDB). Até lá muitas revoltosas badernas ao som de tiros de bala de borracha surgirão, e as melhorias ficarão para uma nova concessão, sob o silêncio do legislativo, e claro, do judiciário; prevalecendo a verdade na convicta careta do Willian Bonner anunciando mais um ato de vandalismo diante de um cenário cada vez mais laboratório de revoltas populares. 

Sabe Willian, às vezes penso que tudo não passa de uma sinfonia orquestrada para os rombos do PAC da Copa, que por tabela vai privatizando em forma de concessão serviços públicos essenciais; a maioria de responsabilidade do Estado que há décadas deu às costas para as necessidades básicas da população, como o direito a um serviço de transporte público com conforto, segurança, e claro, pontualidade. 


O povo fluminense aguarda para que os 30 novos trens da China subam nos trilhos, assim como a concessionária Supervia aguarda pelo BNDES o financiamento de R$800 milhões, representando 65% do total de R$1,24 bilhão que a companhia se comprometeu investir até 2020.

Um comentário:

Anônimo disse...

Show de lucidez cavaleiro andante. Ainda esta à busca da amada Dulcinea?