quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Eu, você e o Belchior

Se algum dia nos encontrarmos e você vier me perguntar por onde andei, gostaria de dizer que estava com Belchior; bem longe do Sarney e dos cabra da peste que impesteiam os poderes que estão apodrecendo o sonho do brasileiro e de tantos outros irmãos latinos.

Quando assisti à entrevista do fujão latino americano sem parentes importantes, confesso: senti Inveja do Belchior. Queria também poder ir para o Uruguai; voltar a ser um rapaz Latino-Americano e mesmo sem dinheiro no banco, permanecer sonhando acordado de que tudo é divino, tudo é maravilhoso.

E não cantaria a canção como se deve: correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Pois estaria em fuga da sujeirada. Partiria vomitando em cima dos escrementos que nos atormentam com emendas de orçamento e tal, apoiadas nos “emprestados” canhões que avermelharam a rosada casa de Alende.

Nesse contexto, nada é divino, nada; nada é maravilhoso, nada; nada é sagrado; nada, nada é misterioso. Ressuscitaria a “poderosa” e costuraria as veias abertas da nossa querida América Latina, para estancar o sangue derramado de nossos irmãos talhado nas entranhas da exploração encoberta pelo sinistro descobrimento.

Por isso, cada passo deve ser cuidadosamente estudado. O sinal, discretamente está fechado para nós desde que aqui chegaram as três caravelas.

Por ventura ou por azar, vieram com Cristo e o canhão. Quantos índios mataram ninguém pode contar. Conta-se que algumas mortes não ocorreram por ação do invasor que chegou de além-mar trazendo os deuses cavalos; índias mães desesperadas, com receio do futuro, aguardavam com a mão enforcante a vinda do pescoço do rebento, pensando dessa forma libertá-lo.

E o rebento partia com a face rocheada, sem mesmo chegar. Sem soltar o choro de celebração da vida, ou o grito da vitória.

Nem um choro, apenas lamento. Sons, palavras, são navalhas e não podemos cantar como convém sem querer ferir ninguém, pois o ferido de morte sou eu, é você. E de nada adiantará gritar, pois correrá o risco de perceberem sua presença; então o silêncio é a saída, ou quem sabe a abertura de sua sepultura.

A escolha, lembre-se, é você que faz. Pode fugir quando quiser, mas permanecerá preso na lembrança de não ter tentado.

4 comentários:

Anderson disse...

Já fomos colonizados com o objetivo de sermos explorados, somados a má administração, toda essa podridão que nos rodeia na esfera de um modo geral faz com que as vezes tenhamos vontade de sumirmos do mapa e ficarmos sonhado que dias melhores a de virem.

Alline disse...

Querido virtual, mesmo depois de toda a nossa conversa, não posso deixar de admirar seu texto. É fantástico! Adoro como vc escreve. Tem o dom mesmo, maaaaaaaaaaas.... continuo com minha versão para o futuro.. Minha bolinha de cristal costuma ser certeira. ;)
Não é pessimismo, mas uma andorinha só não faz verão. Só vejo uma.. as outras estão só no coro. Entende?
Beijão, amigo que me traz saudades.

Alucinações disse...

Bem que nesta sonora crônica poderia ter um espaço de uma kombi, toda colorida, com todos amigos, esposas, filhos, só pensar na PAZ e no AMOR, com alguns instrumentos e muita música do Belchior. Mas aqui na América latina existiu uma civilização que conversava com a floresta, dominava a produção agrícola, a astronomia a construção de cidades tenha sido totalmente dizimada pela humana irracionalidade fazendo com que parte daquele conhecimento precisou que ser redescoberto, fico pensando como seria se tivéssemos evoluído junto com os incas e os maias. Sem contar dos verdadeiros donos desta terra, hoje Brasil, que viviam nus em harmonia com a natureza, ouviam a sinfonia da floresta, e que floresta, a maior biodiversidade do planeta. Aqui no anônimo Estado do Espírito Santo as terras indígenas foram trocadas por promessas, intimidações e cachaça. Só restou uma aterrorizante e silenciosa plantação de eucalipto. E os imigrantes europeus que fugidos das guerras chegaram aqui aos montes, os artesões foram para as grandes cidades brasileiras os pobres agricultores para roça, a grande maioria continuou pobre e trabalhando na roça. Contudo as belas matas que aqui encontraram viram pastos ou plantações de café as velhas casas coloniais construídas com aquela madeira nobre já não existem mais, seus descendentes querem cidadania européia. Então fico a pensar tenho que requerer a minha segunda cidadania também, é claro que de africano, alias moro na periferia, sou filho de lavadeira com pescador, minha avô também lavadeira e bisa dizia ser ex-escreva, coisa que eu não duvido, haja vista que éramos visinhos de uma senhora que catava papel, também ex-escrava imortalizada em uma estatua de bronze numa praça da Ilha de Vitória. É difícil imaginar o sentimento de ser arrancado de sua nação para ser escravizado em outras terras. Mas parece que isso continua nos dias de hoje, porém isso ocorre de livre espontânea vontade. È só conseguir atravessar a fronteira do México. Pode não haver chibatas, mas há muitas latrinas para lavar. Por aqui as senzalas viram favelas. Porém o meu pequeninho e quase insignificante lamento é só para dizer que estamos juntos neste primeiro milheiro de boa gente, que está antenado no grito do grande guerreiro Fernando Magno nosso contemporâneo Dom Quixote.

Fernando de La Mancha disse...

O detalhe é o observar. De longe é mais fácil ver o fim da reta...